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sábado, 3 de dezembro de 2011

A Vida (Florbela Espanca)



A VIDA 
  
É vão o amor, o ódio, ou o desdém; 
Inútil o desejo e o sentimento...  
Lançar um grande amor aos pés de alguém 
O mesmo é que lançar flores ao vento!  
  
Todos somos no mundo «Pedro Sem», 
Uma alegria é feita dum tormento, 
Um riso é sempre o eco dum lamento, 
Sabe-se lá um beijo de onde vem!  
  
A mais nobre ilusão morre... desfaz-se...  
Uma saudade morta em nós renasce 
Que no mesmo momento é já perdida...  
Amar-te a vida inteira eu não podia.  
A gente esquece sempre o bem de um dia.  
Que queres, meu Amor, se é isto a vida!  

(Florbela Espanca)

Esquecimento (Florbela Espanca)




ESQUECIMENTO  
  
Esse de quem eu era e que era meu,  
Que foi um sonho e foi realidade  
Que me vestiu a alma de saudade,  
Para sempre de mim desapar’ceu.  
  
Tudo em redor então escureceu,  
E foi longínqua toda a claridade!  
Ceguei,... tacteio sombras... Que ansiedade!  
Apalpo cinzas porque tudo ardeu!  
  
Descem em mim poentes de Novembro.  
A sombra dos meus olhos, a escurecer...  
Veste de roxo e negro os crisântemos...  
E desse que era meu já me não lembro...  
Ah, a doce agonia de esquecer  
A lembrar doidamente o que esquecemos!  

Florbela Espanca

AMAR!!! (Florbela Espanca)

AMAR!  

  
Eu quero amar, amar perdidamente!  
Amar só por amar: aqui... além...  
Mais Este e Aquele, ou Outro e toda a gente...  
Amar! Amar! E não amar ninguém!  
  
Recordar? Esquecer? Indiferente! ...  
Prender ou desprender? É mal? É bem? 
Quem disser que se pode amar alguém 
Durante a vida inteira é porque mente!  
  
Há uma Primavera em cada vida: 
É preciso cantá-la assim florida, 
Pois se Deus nos deu voz, foi para cantar!  
E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada 
Que seja a minha noite uma alvorada, 
Que me saiba perder... pra me encontrar...  

Florbela Espanca